Saturday, August 31, 2013

Um grande poema de Seamus Heaney

Seamus Heaney

The Mud Vision                    


Statues with exposed hearts and barbed-wire crowns
Still stood in alcoves, hares flitted beneath
The dozing bellies of jets, our menu-writers
And punks with aerosol sprays held their own
With the best of them. Satellite link-ups
Wafted over us the blessings of popes, heliports
Maintained a charmed circle for idols on tour
And casualties on their stretchers. We sleepwalked
The line between panic and formulae, screentested
Our first native models and the last of the mummers,
Watching ourselves at a distance, advantaged
And airy as a man on a springboard
Who keeps limbering up because the man cannot dive.

And then in the foggy midlands it appeared,
Our mud vision, as if a rose window of mud
Had invented itself out of the glittery damp,
A gossamer wheel, concentric with its own hub
Of nebulous dirt, sullied yet luccent.
We had heard of the sun standing still and the sun
That changed colour, but we were vouchsafed
Original clay, transfigured and spinning.
And then the sunsets ran murky, the wiper
Could never entirely clean off the windscreen,
Reservoirs tasted of silt, a light fuzz
Accrued in the hair and the eyebrows, and some
Took to wearing a smudge on their foreheads
To be prepared for whatever. Vigils
Began to be kept around pudddled gaps,
On altars bulrushes ousted the lilies
And a rota of invalids came and went
On beds they could lease placed in range of the shower.

A generation who had seen a sign!
Those nights when we stood in an umber dew and smelled
Mould in the verbena, or woke to a light
Furrow-breath on the pillow, when the talk
Was all about who had seen it and our fear
Was touched with a secret pride, only ourselves
Could be adequate then to our lives. When the rainbow
Curved flood-brown and ran like a water-rat's back
So that drivers on the hard shoulder switched off to watch,
We wished it away, and yet we presumed it a test
That would prove us beyond expectation.

We lived, of course, to learn the folly of that.
One day it was gone and the east gable
Where its trembling corolla had balanced
Was starkly a ruin again, with dandelions
Blowing high up on the ledges, and moss
That slumbered on through its increase. As cameras raked
The site from every angle, experts
Began their post factum jabber and all of us
Crowded in tight for the big explanations.
Just like that, we forgot that the vision was ours,
Our one chance to know the incomparable
And dive to a future. What might have been origin
We dissipated in news. The clarified place
Had retrieved neither us nor itself -- except
You could say we survived. So say that, and watch us
Who had our chance to be mud-men, convinced and estranged,
Figure in our own eyes for the eyes of the world.

1987


Whiterocks Beach, Irlanda do Norte, fotografia de Miguel Castro Mendes


Friday, August 30, 2013

Um adeus a Seamus Heaney


foto de Miguel Castro Mendes:    Cushendun, Glens of Antrim, Irlanda do Norte


SEAMUS HEANEY

The Disappearing Island

Once we presumed to found ourselves for good
Between its blue hills and those sandless shores
Where we spent our desperate night in prayer and vigil,

Once we had gathered driftwood, made a hearth
And hung our cauldron like a firmament,
The island broke beneath us like a wave.

The land sustaining us seemed to hold firm
Only when we embraced it in extremis.
All I believe that happened there was vision.

Diplomacia e literatura (8)

“Diplomacy is the art of telling people to go to hell in such a way that they ask for directions.”
Winston Churchill

Diplomacia no cinema: "My fair lady"

Diplomacia e cinema: Doris Day nas mãos de Hitchcock ("The Man who knew too much")

A diplomacia no cinema: O Congresso que dança (1932)

A diplomacia vista pela opereta: Franz Lehar

Thursday, August 29, 2013

Diplomatas na literatura (7)


Hergé, Le Lotus bleu
    

Wednesday, August 28, 2013

Os diplomatas na literatura (6)


République Argentine. - La Plata

A Ruben Dario.

Ni les attraits des plus aimables Argentines,
Ni les courses à cheval dans la pampa,
N'ont le pouvoir de distraire de son spleen
Le Consul général de France à La Plata !

On raconte tout bas l'histoire du pauvre homme :
Sa vie fut traversée d'un fatal amour,
Et il prit la funeste manie de l'opium ;
Il occupait alors le poste à Singapoore...

- Il aime à galoper par nos plaines amères,
Il jalouse la vie sauvage du gaucho,
Puis il retourne vers son palais consulaire,
Et sa tristesse le drape comme un poncho...

Il ne s'aperçoit pas, je n'en suis que trop sûre,
Que Lolita Valdez le regarde en souriant,
Malgré sa tempe qui grisonne, et sa figure
Ravagée par les fièvres d'Extrême-Orient...
Henry Jean Marie Levet, Cartes Postales

Os diplomatas na literatura (5)


Le prince, dans ses ambassades et comme ministre des Affaires étrangères, avait tenu, pour son pays au lieu que ce fût comme maintenant pour lui-même, de ces conversations où on sait d'avance jusqu'où on veut aller et ce qu'on ne vous fera pas dire. Il n'ignorait pas que dans le langage diplomatique causer signifie offrir.

ProustLe Côté de Guermantes 1,1920, p. 258.

Os diplomatas na literatura (4)


Cidadãos! Vejamos um pouco a nossa diplomacia.
Queixava-se há tempos o excelente Jornal da Noite que o Governo não publicasse os relatórios dos seus diplomatas, ministros, encarregados de negócios, secretários, etc.
Ingénuo Jornal da Noite! E o mesmo que censurar que se não fotografem os baixos-relevos
– de uma parede Lisa. Que quer o distinto redactor do Jornal da Noite que o
Governo publique? A diplomacia só tem a oferecer, como resultado dos seus trabalhos há vinte anos, o seu papel almaço – em branco. Se os nossos diplomatas quiserem um dia remeter para Portugal, em consciência, devidamente empacotados, os documentos do que nas suas missões criaram, organizaram, pensaram, trataram – a secretaria encontraria espantada, ao abrir o pacote:
Um montão de luvas gris-perle em mau uso!!
Se a esses cavalheiros que têm sido ministros e encarregados de negócios em
Londres, em Berlim, em Paris, em Madrid, em Bruxelas, em Estocolmo, em
Sampetersburgo, em Milão, em Roma, no Rio de Janeiro, em Viena de Áustria, em
Washington, com os seus secretários de embaixada, os seus adidos, os seus ordenados, despesas de representação, despesas de expediente, despesas secretas, etc., unia voz impertinente perguntasse: – «Como têm VV. Ex.as desempenhado as suas missões? Que tratados vantajosos têm alcançado para o nosso País? Que estabelecimentos portugueses têm lá favorecido? Que serviços internacionais têm regularizado? Que relações sólidas e protecções valiosas têm obtido para a nossa pequenina nação? Que estudos têm feito sobre a organização e instituições desses países? Em que sábios trabalhos as têm aconselhado para nosso progresso? Que conhecimento têm dado aos estrangeiros das nossas instituições, do nosso comércio, da nossa ciência! Etc.? Etc.?» – SS. Ex.as a tais interrogações ficariam pálidos de surpresa! Os nossos diplomatas inteiramente ignoram que estes sejam os seus encargos. Nenhum curso lhos ensinou, nenhuma lei lhos incumbiu. Eles seguem a velha tradição de que a diplomacia é uma ociosidade regalada, bem convivida, bem comida, bem dançada, bem gantée, bem voiturée, com bons ordenados e viagens pagas. Estão ali para serem diplomatas na gravata – e não para serem diplomatas no espírito: e achariam um abuso inclassificável que os tivessem nomeado para marcar o cotillon e no fim lhes exigissem relatórios. SS. Ex.as entendem que o País está bem representado desde o momento em que o seu colarinho é irrepreensível... E todavia SS. Ex.as estão representando uma nação – e não uma camisaria! Se SS. Ex.as vão unicamente encarregados de mostrar aos países estrangeiros a excelência dos nossos alfaiates – então o País não é o interessado, e o Sr. Keil que lhes pague! Se SS. Ex.as têm apenas por missão mostrar lá fora como o País dança bem, entendemos que SS. Ex.as prestam melhor serviço na sua pátria; e não ousando pedir ao
Governo que os faça recolher à secretaria, pedimos aos Srs. Valdez e Cossoul, empresários de S. Carlos, que os façam recolher ao corpo de baile!
O País conhece bem a nossa diplomacia: já a viu à luz da rampa, a um rumor de orquestra: já riu com ela, já lhe bateu as palmas: ela aparecia, esplendidamente real, na corte grotesca de S. A. a grã-duquesa de Gerolstein, poderosa princesa em três actos.
Era o barão Grog. O barão Grog, não se lembram? Somente a nossa diplomacia não usa rabicho, e curva-se com menos elegância. E o barão Grog conspirava! Os nossos nem sequer conspiram! Ele tinha graça, os nossos são lúgubres! Ele só nos custava um bilhete de plateia, os nossos custam-nos infinitos contos! 
Evidentemente na organização da nossa diplomacia vamos seguindo um caminho imprevidente.
As habilitações que se exigem de um cidadão devem estar em harmonia com os serviços que se esperam dele. Não se requer, dos que pretendem ser lentes do Curso
Superior de Letras, que apresentem certidão de saber dançar dignamente o cancã. Ora se a missão de um diplomata é comer bem, dançar bem, vestir bem, parece-nos inútil que se lhe peçam provas de que conhece o direito internacional e a história diplomática! O mais trivial bom senso ordena que ele seja examinado simplesmente em pontos como estes:
Maneira mais própria de pôr a gravata branca, e suas divisões;
Método mais fino de comer a ostra; princípios gerais; aplicações;
Da valsa: teorias; questões principais; exemplos; etc.
Assim suponhamos que algum dos nossos mais nobres «vultos políticos», o Sr.
Braamcamp, por exemplo, pretende uma embaixada. Autorizam-no a isso a sua experiência e o seu critério. Que se lhe dê! Mas que antecipadamente S. Exª seja examinado na secretaria dos estrangeiros por um júri competente e recto:
Tenha V. Exª, Sr. Braamcamp (dirá o júri), a bondade de se sentar àquela mesa e comer aquele linguado frito, para nos provar que não lhe é estranho esse ponto da ciência diplomática...
E S. Exª tomando delicadamente o garfo, e na extremidade de dois dedos uma côdea fina de pão, com os braços unidos, a cabeça direita, os olhos baixos, provará a sua imensa competência naquela questão difícil.
– Tenha agora V. Exª, Sr. Braamcamp, a bondade de valsar um momento pela casa, com donaire...
E S. Exª arqueando molemente os braços, despedido em giros graciosos por entre as mesas da secretaria, com a cabeça meigamente reclinada, o olhar amoroso, a cintura mórbida, provará vitoriosamente que tem compulsado com mão diurna e nocturna todos
Os expositores daquela ilustre matéria.
(N. B. – Para que o concorrente não valse só, poderá utilizar-se como dama o contínuo da secretaria, que o examinando tomará nos braços com requebro meigo).
E aprovado que tosse o Sr. Braamcamp, ou outro cavalheiro, nos pontos sujeitos, o País podia entregar-lhe confiadamente uma missão numa corte estrangeira, certo que os seus interesses seriam ali dignamente – comidos e dançados!
Também nos ocorre que consistindo uma das principais funções dos secretários de embaixada e adidos em dançar nos bailes do Paço, a melhor maneira de alcançar um pessoal diplomático verdadeiramente superior seria escolhê-lo–no corpo de baile!
Ninguém teria então, entre a diplomacia europeia, mais graça, harmonia e ligeireza nos movimentos. E seria honroso para todos que os jornais estrangeiros pudessem noticiar:
«Chegou hoje a Srª Pinchiara, antiga primeira bailarina de S. Carlos, hoje secretário da embaixada portuguesa...
E mais tarde registassem para vaidade eterna da nossa Pátria:
«Ontem a maravilha no baile da corte foi a maneira adorável por que dançou a Srª
Pinchiara, secretário da legação portuguesa. Parecia um silfo, com os seus vestidos de gaze. Notou-se apenas que o sr. secretário da legação estava um pouco decotado de mais. É admirável a brancura do seu colo!...»
Igualmente nos parece vantajoso que o concurso para adido de legação verse, não sobre a ciência dos concorrentes–mas sobre a sua roupa branca. Se o dever essencial de um adido é a exposição solene dos colarinhos que se alteiam sob a suíça, dos Largos peitos de camisa que se arqueiam como couraças, e dos punhos que espirram para fora da manga com uma rijeza de aço – deve o Governo de S. M. utilizar para o serviço diplomático aqueles que, pela beleza e solidez dos seus engomados, melhor acreditarem lá fora as nossas instituições. E a diplomacia começará a dar garantias da sua eficácia, quando o Sr. X tiver conquistado os sufrágios do júri pelo brilho das suas camisas inglesas e pelo valor das suas peúgas – e o Sr. Y for plenamente reprovado por ter apresentado, por toda a ciência e experiência dos negócios, um reles colarinho à mamã!
Com entranhada mágoa o dizemos: os senhores diplomatas portugueses vestem-se de um modo a que só falta para ser distinto – ser inteiramente diverso do que é. SS. EXª ou se ajeitam pelo feitio nacional que tanto domina na Rua dos Fanqueiros, ou então adoptam o velho chique de boulevard, ainda do tempo do ministério Rouher, hoje unicamente usado pelos pollos de Madrid! Não seria pois fora de propósito que existissem na secretaria dos estrangeiros figurinos-modelos, com comentários e notas, que os senhores adidos deveriam estudar antes de encomendar as suas farpelas.
Outrossim se nos afigura imprudente que os srs. diplomatas possam fazer um fraque sem previamente levarem o corte e talhe à aprovação da comissão diplomática.
Igualmente pedimos ao Governo, em nome do País, que não deixe sair nenhum senhor diplomata sem previamente lhe ter examinado:
As unhas e a caspa do cabelo!
Uma das coisas que prejudica a nossa diplomacia é ela não possuir espírito. Ser espirituoso é metade de ser diplomata. A tradição clássica mostra-nos Talleyrand governando a intriga europeia com as finas decisões dos seus bons ditos: modernamente, desde Morny até ao sombrio Sr. de Bismarck, a diplomacia tem feito do espírito quase um método. O espírito move tudo e não responde por coisa alguma: ele é a. eloquência da alegria, e o entrincheiramento das situações difíceis: salva uma crise fazendo sorrir: condensa em duas palavras a crítica de uma instituição: disfarça às vezes a fraqueza de uma opinião, acentua outras vezes a força de uma ideia: é a mais fina salvaguarda dos que não querem definir-se francamente: tira a intransigência às convicções, fazendo-lhes cócegas: substitui a razão quando não substitui a ciência, dá uma posição no mundo, e, adoptado como um sistema, derruba um império. E, sobre-tudo pelo indefinido que dá à conversação, ele é a arma verdadeira da diplomacia. Ora, com compunção o dizemos, a nossa diplomacia não tem espírito. Seria por isso bem útil que o ministério dos estrangeiros examinasse os seus diplomatas, antes de os nomear, em pontos assim concebidos:
– Estando o senhor adido numa sala, e começando na rua a chover, que pilhéria deverá o senhor dizer?
– Num camarote de ópera, quais são as facécias que deve lançar um secretário de legação sobre o corpo de baile?
E seria conveniente que a secretaria possuísse uma lista de jocosidades, para todos os usos da vida, que os senhores diplomatas deveriam decorar: 
Pilhérias para baile;
Ditas para almoço;
Ditas para cerimónias religiosas;
Ditas para recepções no Paço;
Ditas para entreter personagens célebres;
Ditas para enterro de pessoas reais, etc.
Concorre muito para que a nossa diplomacia não seja brilhante, o horror que o
País tem a ser representado por homens inteligentes. Não se pode dizer que isto proceda do amor de os possuir no seu seio: antes parece que o domina o terror de que eles vão destruir a reputação de embrutecimento que o País goza lá fora. A verdade é que, quando algum homem inteligente vai em missão diplomática, os jornais bravejam, e a opinião pública apita!
Se alguém ousasse, por arrojo absurdo, mandar em embaixada o Sr. Alexandre
Herculano, a Nação, de raiva, abria as veias! Por sua vontade o País enviaria às cortes estrangeiras, para ser representado dignamente – bacorinhos do Alentejo. Não o faz, porque, corno ao mesmo tempo é avaro e desconfiado, receia que as cortes estrangeiras, não podendo arrancar a tais diplomatas segredos políticos, lhes arrancassem – presuntos! Por isso manda homens. E só por isso!
Ao mesmo tempo o País gosta de pagar barato à sua diplomacia. E neste ponto abusa. Quer uma diplomacia bem fardada, bem bordada: e no fim se se lhe apresenta, por ter uma diplomacia, uma conta um pouco maior do que por ter um carroção – escandaliza-se e grita pelo sr. bispo de Viseu, D. António. De modo que um ministro plenipotenciário vê-se mais embaraçado com o rol das compras, que com o manejo das políticas!
Os diplomatas portugueses passam por agra. dar no estrangeiro pela sua palidez!
Mas não se sabe que a sua palidez vem, não da beleza de raça peninsular, mas da fraqueza de legação mal alimentada. Onde um embaixador português mais se demora, não é diante das instituições estrangeiras com respeito, é diante das lojas de mercearia com inveja! E se eles não podem alcançar bons tratados para o País – é porque andam ocupados em arranjar mais rosbife para o estômago. Se não fossem os jantares da corte e as ceias dos bailes, a posição de diplomata português era insustentável. E ainda veremos os jornais estrangeiros, noticiarem:
«Ontem, na Rua de... caiu inanimado de fome um indivíduo bem trajado.
Conduzido para uma botica próxima o infeliz revelou toda a verdade – era o embaixador português. Deram-lhe logo bifes. O desgraçado sorria, com as lágrimas nos olhos.»
Que o País atenda a esta desgraçada situação! Que tenha um movimento generoso e franco! Dê aos seus embaixadores menos títulos e mais bifes! Embora lhes diminua as atribuições, aumente-lhes ao menos a hortaliça. Eles pedem ao seu país uma coisa bem simples: não é um palácio para viver, nem um landau para passear, nem fardas, nem comendas! É carne! Que o País, no número do pessoal diplomático – diminua os adidos e aumente os bois.
Que a nossa diplomacia, aliás meritória e simpática, se não agaste com estes traços ligeiros! Quisemos apenas rire un brin. E nesta nossa triste terra, quando a gente se quer alegrar e folgar um pouco, tem de recorrer às instituições, que são entre nós – pilhérias organizadas funcionando publicamente. 

(Eça de Queirós, Uma Campanha Alegre)

Tuesday, August 27, 2013

Os diplomatas na literatura (3)


LETTRE OUVERTE À M. PAUL CLAUDEL AMBASSADEUR DE FRANCE AU JAPON
« Quant aux mouvements actuels, pas un seul ne peut conduire à une véritable rénovation ou création. Ni le dadaïsme, ni le surréalisme qui ont un seul sens : pédérastique.
Plus d'un s'étonne non que je sois bon catholique, mais écrivain, diplomate, ambassadeur de France et poète. Mais moi, je ne trouve en tout cela rien d'étrange. Pendant la guerre, je suis allé en Amérique du Sud pour acheter du blé, de la viande en conserve, du lard pour les armées, et j'ai fait gagner à mon pays deux cents millions. »
« Il Secolo », interview de Paul Claudel reproduite par « Comoedia », le 17 juin 1925.
Monsieur,
Notre activité n'a de pédérastique que la confusion qu'elle introduit dans l'esprit de ceux qui n'y participent pas.
Peu nous importe la création. Nous souhaitons de toutes nos forces que les révolutions, les guerres et les insurrections coloniales viennent anéantir cette civilisation occidentale dont vous défendez jusqu'en Orient la vermine et nous appelons cette destruction comme l'état de choses le moins inacceptable pour l'esprit.
Il ne saurait y avoir pour nous ni équilibre ni grand art. Voici déjà long-temps que l'idée de Beauté s'est rassise. Il ne reste debout qu'une idée morale, à savoir par exemple qu'on ne peut être à la fois ambassadeur de France et poète.
Nous saisissons cette occasion pour nous désolidariser publiquement de tout ce qui est français, en paroles et en actions. Nous déclarons trouver la trahison et tout ce qui, d'une façon ou d'une autre, peut nuire à la sûreté de l'Etat beaucoup plus conciliable avec la poésie que la vente de « grosses quantités de lard » pour le compte d'une nation de porcs et de chiens.
C'est une singulière méconnaissance des facultés propres et des possibilités de l'esprit qui fait périodiquement rechercher leur salut à des goujats de votre espèce dans une tradition catholique ou gréco-romaine. Le salut pour nous n'est nulle part. Nous tenons Rimbaud pour un homme qui a désespéré de son salut et dont l'oeuvre et la vie sont de purs témoignages de perdition.
Catholicisme, classicisme gréco-romain, nous vous abandonnons à vos bondieuseries infâmes. Qu'elles vous profitent de toutes manières ; engraissez encore, crevez sous l'admiration et le respect de vos concitoyens. Ecrivez, priez et bavez ; nous réclamons le déshonneur de vous avoir traité une fois pour toutes de cuistre et de canaille.
Paris, le 1er juillet 1925.
Maxime Alexandre, Louis Aragon, Antonin Artaud, J.-A. Boiffard, Joë Bousquet, André Breton, Jean Carrive, René Crevel, Robert Desnos, Paul Eluard, Max Ernst, T. Fraenkel, Francis Gérard, Eric de Haulleville, Michel Leiris, Georges Limbour, Mathias Lübeck, Georges Malkine, André Masson, Max Morise, Marcel Noll, Benjamin Péret, Georges Ribemont-Dessaignes, Philippe Soupault, Dédé Sunbeam, Roland Tual, Jacques Viot, Roger Vitrac.

Os diplomatas na literatura (2)


Le di

Many diplomats have used poetry in their diplomatic work: wrapping words in silk is the diplomat’s job. A diplomat may turn a lie into a ‘constructive ambiguity’ – which is a way of defining poetry. Some poets have been diplomats – Neruda, Claudel, St. John Perse. It’s an occupational hazard: the stimulating place, the sheltered existence – and the ability to paraphrase the unknowable. Few diplomats will admit to using poetry as a survival strategy.
Diplomats are like watchmakers: their art is hidden inside a bland, if polished, case. Only a couple of hands, forever going round and round to no apparent purpose, betray the existence of an intelligent design. The best designer is the one who leaves no signature – just invariant perfection. Creating a masterpiece, however, is a rare opportunity.
In daily diplomatic routine one is to judge the quality of a negotiated text not by its content, but by its discards. At the end of the day, under a diplomat’s table one may find crumpled amendments, execrable points of order, and many a plain word. The box of useless qualifiers, the well of slimy compromises, lie about empty.
To survive, a diplomat needs poetry. Filed amidst the many layers of the brief, the short poem will refresh the bleary mind. Poetry brings distance – hence perspective and insight. Poetry reminds the diplomat that the best professional is the amateur.
Most deeply – poetry is truth.

(Aldo Mateucci)

(A

Os diplomatas na literatura (1)

Il se prétendait fort en diplomatie, la science de ceux qui n'en ont aucune et qui sont profonds par leur vide ; science d'ailleurs fort commode, en ce sens qu'elle se démontre par l'exercice même de ses hauts emplois ; que voulant des hommes discrets, elle permet aux ignorants de ne rien dire, de se retrancher dans des hochements de tête mystérieux ; et qu'enfin l'homme le plus fort en cette science est celui qui nage en tenant sa tête au-dessus du fleuve des événements qu'il semble alors conduire, ce qui devient une question de légèreté spécifique. Là, comme dans les arts, il se rencontre mille médiocrités pour un homme de génie. 

(Balzac, Les Illusions Perdues)

Sunday, August 25, 2013

Saturday, August 24, 2013

Y RÍASE LA GENTE

Resposta a um artigo do eurodeputado Correia de Campos sobre pensões e jubilações

"Público" de 20 de outubro de 2011:

A meio de Setembro, Miguel Portas, deputado do grupo Esquerda Unitária Europeia, fez uma proposta por escrito à comissão de orçamento do PE de um corte de 25% nas despesas gerais dos rendimentos dos deputados, que inclui gestão do gabinete, como correio ou "agrafos". Isto representaria menos mil euros mensais por eurodeputado ou um bolo total de nove milhões, segundo as suas contas. 

E diz: "A única questão é saber se os deputados que não têm nenhuma hesitação de, nos seus próprios países, aplicar medidas de austeridade draconianas têm a coragem de não considerar intocáveis os seus rendimentos." 

À excepção dos eurodeputados eleitos através do Bloco de Esquerda, mais nenhum português assinou a proposta de redução nas despesas. 

A eurodeputada pelo PS Ana Gomes disse ontem que não o fez porque há um compromisso dos socialistas em relação à proposta de orçamento. Mas se for, de facto, a votos, Ana Gomes decidirá a favor. "Numa altura destas faz todo o sentido. Faz sentido que os deputados tenham dinheiro para fazer o seu trabalho, mas também devem fazer cortes nos seus rendimentos. É um corte simbólico, não posso ser contra", disse.

Thursday, August 22, 2013

De onde escrevo agora


Sobre a terra avança o nevoeiro


Radicalizando

"If you haven't been radicalized by recent events, you haven't been paying attention"

(Paul Krugman, no New York Times)

Os socialistas moderados

São homens decentes que foram convencidos a defender a indecência.

Noite em Odeceixe

A noite do mundo alertou-nos muitas vezes
e nunca olhámos bastante os céus perdidos:
agora estou aqui, reduzido ao essencial do meu caminho,
a olhar sem esperança uma luz que me desafia
na casa que vi crescer.

Tenho orgulho no que deixei:
afinal a esperança deu-nos talvez só maus conselhos.
Versos e filhos, amor a refazer-se como as ondas
em palavras e corpos.
Poucas coisas deixo para os animais de rapina,
para os amigos dos ricos que se dizem amigos dos pobres
e em quem eu acreditei.

A grande liberdade de não acreditar em nada.
Foi preciso chegar este verão
para compreender como me fiz livre
de esperanças e ilusões. A casa ergue-se sobre as falésias
e tudo o que nós fazemos é um desafio ao mundo
deixado à complacência dos outros.

Poucas vezes vou por lá. Não preciso de confirmações,
nem de certezas tão irrisórias como o insulto de um político.
A casa aponta o céu num desafio
e a luz chama-nos à certeza do mundo.
De pouco mais preciso.

Wednesday, August 21, 2013

Edições de poesia (2)

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Banda desenhada de J.C. Fernandes, dedicado aos meus editores

Edições de poesia

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De J.C. Fernandes, dedicado aos meus editores

Friday, August 16, 2013

Alexandre O' Neill

Esse chapéu de ir a bancos
fica-lhe, doutor, a matar
no intermédio labor de falazar.

- Impenitente poetastro
  a que dislate se atreveu?
  Nao tem onde cair morto
  e da sinistra e ate...

- Doutor, já aqui nao esta quem falou!

(Alexandre O'Neill)


Thursday, August 15, 2013

O anjo da História

Falavas do anjo
com palavras nuas:
da morte o arcanjo,
o povo nas ruas.

Olhava pra trás,
imperfeitas asas:
a morte e que faz
de nos suas casas.

Esperança, morre
nesta encruzilhada.
Nada se resolve
com tua passada.

O anjo sorriu
tao so de tristeza:
ver correr o rio
da nossa pobreza.

Nota:

O anjo da História, Walter Benjamin a partir de Paul Klee



A espera do anjo

Cristal ou rebate
da palavra nua:
deste lado bate
a esperança na rua.

Deste lado bate,
nao pode morrer:
clamor do combate
por acontecer.

O anjo que busca
nas frias esquinas?
Que luz nos ofusca
com mãos assassinas?

O que e que em nos vive
sem poder morrer?
Que luz nos redime
ate se esconder?